O caminho é tortuoso. São dois lances de uma escada com degraus irregulares, onde é preciso perícia para não tropeçar. No meio do percurso, há fios da rede elétrica expostos. O risco de acidentes é constante, mas a infra-estrutura precária está longe de ser um empecilho para os freqüentadores da lan house (estabelecimento comercial de acesso à internet) “Xsite”, em Sussuarana. A loja fica em uma sala pequena e escura. Abriga oito computadores e um punhado de adolescentes que não desgrudam os olhos dos monitores.Esta é apenas uma das mais de 20 lan houses de Sussuarana, segundo estimativa de comerciantes locais. “Só aqui nesta rua são mais de dez”, afirma Murilo Santana, proprietário da lan house “Idéias” na Avenida Ulisses Guimarães, coração do bairro. A realidade é a mesma na maioria dos bairros periféricos de Salvador. Em Pernambués, por exemplo, são cerca de 50 estabelecimentos concorrentes de acesso pago à internet. A média de preço é de R$ 1 por cada hora de uso do computador.
Diante dos preços nada acessíveis dos computadores, as lan houses se tornaram a principal opção do cidadão de baixa renda. De acordo pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil em agosto de 2006, cerca de 50% dos usuários com renda familiar de até R$ 300 acessam internet nesses estabelecimentos.
Quem não é adepto das lan houses, recorre aos computadores de escolas, trabalho ou casa de amigos. A universitária Janine Oliveira costuma usar o laboratório de informática da faculdade. Ela tem computador próprio, mas conta que “deu um tempo” no acesso à internet em casa: “Na hora do sufoco, a gente tem que cortar os gastos que não são prioridade".
Longe de ser universalizado, o uso da internet ainda não é uma realidade para maioria da população. Conforme dados de uma pesquisa divulgada pela ONU (Organização das Nações Unidas) neste mês, somente 21% dos brasileiros, ou 39 milhões de pessoas, estão conectados à web. Este universo, contudo, coloca o Brasil na 6º população de usuários da internet no planeta.
Sem banda larga – As tarifas salgadas dos serviços de conexão banda larga (de alta velocidade) são o principal obstáculo na universalização da internet no país. Na Bahia, a mensalidade de um dos serviços de banda larga mais populares, o Velox, varia entre R$ 69,90 e R$159,90. Além desta tarifa, o usuário ainda tem que pagar o provedor de acesso, que cobra em torno de R$ 30 por mês.
Com o elevado custo dos serviços de banda larga, o acesso à internet em casa está longe de se tornar uma realidade nas periferias do país. Segundo a pesquisa do Conselho Gestor da Internet no Brasil, somente 9% da população com renda até R$ 300 tem este privilégio.
A pesquisa ainda revela que cerca de metade dos domicílios que utilizam a conexão discada (por telefone), não migram para a banda larga por conta dos custos com tarifas. É o caso do estudante Eduardo de Jesus, 16 anos. Apesar de possuir um computador, ele não tem condições de arcar com os preços de uma conexão banda larga. Por isso, acaba fazendo da lan house a sua segunda casa: “Gasto em torno de 15 reais por semana”.
Além das tarifas consideradas altas, muitas vezes o serviço de banda larga não é oferecido em alguns logradouros de bairros populares. O universitário Caio Coroa, morador de Sussuarana, revela que tentou instalar banda larga no seu computador, mas a empresa não disponibilizava o serviço na sua rua. “Eu teria que puxar um fio de 110 metros a partir da casa de um vizinho. O custo seria muito alto”, reclama. Diante do problema, ele recorre às lan houses de seu bairro. E nem cogita uma conexão discada: “É horrível, muito lento. Melhor não usar”.

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