sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Adolescente passa noite em bueiro em Itapuã

As noites de E.A.M. costumam ser longas, mas a madrugada desta sexta-feira durou mais do que o comum para este jovem de apenas 15 anos. Num momento de desespero, o adolescente e morador de rua conhecido como Chico entrou em um bueiro na rua Paulo Afonso Baqueiro, em Itapuã. Eram 22h de quinta-feira.

Atordoado e na total escuridão, Chico perdeu-se dentro do sistema de esgoto, onde passou cerca de doze horas submerso na água fétida, entre ratos e baratas. O alívio só veio pela manhã do dia seguinte, quando moradores do bairro ouviram os pedidos de socorro do adolescente.

Por volta das 9h, ele foi resgatado com escoriações nas pernas, braços e no ombro. Um morador acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A equipe médica compareceu ao local, mas não chegou a fazer curativos ou encaminhar o jovem a um posto de saúde. Sem ter a que recorrer, Chico acabou sendo amparado pela população local. Ganhou roupas, comida, tomou banho e foi encaminhado para uma das sedes do Conselho Tutelar, órgão municipal responsável por zelar pelos direitos da criança e do adolescente.

Como esta sexta-feira é ponto facultativo nos órgãos públicos, só havia uma conselheira de plantão no local. Ela solicitou o carro do Conselho Tutelar para levá-lo a um posto médico, sem a certeza de que seria atendida. “Vou tentar encaminha-lo para a Casa Dom Timóteo Amoroso Anastácio, onde ele poderá passar a noite. Não podemos fazer mais nada”, contou a conselheira Rita Santiago, revelando a precariedade da estrutura dos conselhos tutelares de Salvador.

Vida na rua – A rotina deste jovem de 15 anos não tem sido das mais fáceis. Morador de rua desde os oito anos de idade, ele costuma perambular pelas ruas de Itapuã diariamente. Ora cochila na calçada, ora tenta tirar uns trocados como guardador de carros. Nem sempre há dinheiro para comer. “O pessoal daqui do bairro às vezes me ajuda. Me dão comida”, diz.

Chico é o filho mais velho de uma família de quatro irmãos. Não sabe onde está o pai e não se dá bem com a mãe, que mora em Simões Filho. Preferiu a solidão das ruas. Analfabeto, estudou apenas durante dois anos, quando freqüentou a primeira série do ensino fundamental. Longe da família, virou alvo fácil das drogas, principalmente o crack.

Esta foi a terceira vez que Chico foi atendido no Conselho Tutelar. Em outras duas oportunidades, ele mesmo procurou o órgão municipal em busca de ajuda. “É um bom menino, nunca foi encaminhado por causa de delito. Mas não temos um local para ele ficar”, revela a conselheira Rita Santiago. Pelo fato de ele já estar na adolescência, a dificuldade de achar abrigo para o rapaz é ainda maior. “Já tentei colocar ele no Projeto Cidadania Solidária, que fica no bairro de Roma, mas eles só aceitam crianças até 12 anos”, conta Rita.

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