sábado, 3 de novembro de 2007

Maternidade fechada deixa as mulheres do subúrbio sem opção

Não se ouve mais o choro dos recém-nascidos na Maternidade Maria Mãe do Salvador. As grávidas do Lobato e de outras localidades do Subúrbio Ferroviário agora precisam se deslocar para bairros distantes, longe do acolhimento da família e da comunidade. Tudo porque a instituição filantrópica está com as portas fechadas desde janeiro do ano passado. A unidade que chegou a fazer 300 partos por mês, morre pela falta de apoio. Endividada, pode ter seu prédio e equipamentos leiloados nos próximos dias.

A população mobiliza-se, estimulada pelas idéias da freira canadense Murielle Fortin, fundadora da instituição, em 1988. Enquanto viaja ao Canadá na tentativa de captar recursos, o novo diretor da instituição busca apoio financeiro do poder público e de empresas privadas. À frente de um hospital falido, o médico psicanalista Daniel Caraúna explica que a maternidade fechou pela queda das cotas do Sistema Único de Saúde (SUS), contrapondo-se à demanda cada vez maior de pacientes.

Segundo o médico, a maternidade atendia mais do que permitia as Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs). “O número de internações era maior que o coberto pelo SUS. Mesmo assim, a irmã Murielle não deixava de atender as pessoas”. Ao gastar mais do que estabeleciam as cotas do SUS, a instituição foi obrigada a suspender temporariamente os salários dos médicos, o que criou problemas com os sindicatos da categoria. O Sindisaúde, com o direito que lhe é atribuído, impediu o funcionamento da maternidade.

Tentativas - “Estamos negociando com a Justiça para que, ao reabrir o hospital, iniciemos o pagamento das dívidas”, explica. Tentativas de reerguer a maternidade não tiveram êxito. Enquanto clínicas e unidades particulares, como o Hospital Português, se interessam em adquirir o prédio, o novo diretor solicita a ajuda da prefeitura para mantê-lo como instituição filantrópica. “A Secretaria Municipal de Saúde é a nossa esperança para manter o atendimento gratuito. Não adianta vir aqui para buscar compensações às custas da população”, avisa.

A Maria Mãe enfrenta até a ambição de interessados que o prédio vá a leilão. O próprio Daniel Caraúna afirma ter sido incitado a não reabrir as portas. “Já me ofereceram uma boa compensação financeira. Mas o nosso projeto é maior”. O resultado da espera por um desfecho está do lado de dentro. Sem uso ou manutenção, os materiais da maternidade deterioram-se. Os próprios colchões, ainda sobre os leitos, desgastam-se a cada dia. As paredes sem pintura ganham mofo. Os cilindros de oxigênio enferrujam-se.

Ordem era para atender todos os pacientes
Não havia quem tivesse atendimento negado na Maria Mãe. A ordem expressa da irmã Murielle era de que todos fossem acolhidos, independentemente de seu problema. Ao longo dos quase 17 anos que esteve na ativa, a instituição funcionou como verdadeiro centro de saúde, mais que uma simples maternidade. Disponibilizava serviços de fisioterapia, odontologia, cardiologia, vacinação, além de exames preventivos, laboratoriais, ultrassonografia e raios-x.

Os partos, porém, eram a referência da população. Parte do Subúrbio Ferroviário nasceu ali. A pequena Lavínia, de 3 anos, é a prova viva da importância da maternidade. A mãe engrossa os pedidos para a reabertura do espaço. “Isso aqui foi construído com muito esforço da irmã Murielle. Não pode morrer dessa forma”, julga Liane Souza Santos. A filha mais nova da dona de casa Ângela Andréia Ferreira completou 8 anos anteontem. Assim como os dois irmãos, veio ao mundo pela Maria Mãe. “Alguém precisa nos ajudar”, solicita.

Não só gente do Lobato, mas também de Periperi, Coutos, Paripe, Praia Grande e tantos outros bairros procuravam os serviços da instituição. “Servia como referência de saúde. A Maria Mãe era um hospital completo”, garante a presidente da Associação de Pais e Mestres do Lobato, Josélia Araújo Nunes.

Dívida é de quase R$2 milhões
Somando-se as questões trabalhistas e demais pendências, a dívida da Maternidade Maria Mãe do Salvador chega quase a R$2 milhões. Para quitar esse valor, os utensílios do hospital entraram em processo de venda pública. Uma das três mesas de cirurgia acabou de ser arrematada num leilão. “Vamos tentar negociar com o comprador para reaver o equipamento”, revela o diretor da instituição.

As seis incubadoras chegaram a ser leiloadas na última quinta-feira, mas não sofreram arremate. “Uma pessoa se manifestou para levar as máquinas, mas recuou quando eu o informei que se tratava de uma instituição filantrópica”, conta Daniel Caraúna. Difícil é barrar a ação dos ladrões. Desde que o hospital foi fechado, já foram roubados um aparelho de raios-x, dois ventiladores, quatro computadores, dois microscópios e um freezer.

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