Poesia política, fantasia medieval, contos bucólicos. Não importa em que gênero um autor independente se arrisque, o caminho para publicar o primeiro livro não é fácil. Na maioria das vezes, sai do próprio bolso.Peter Ângelo Oliveira Freire, 29, estudante de Letras com espanhol na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), sempre gostou de ler histórias de mitologia – grega, nórdica e romana. A afinidade com a fantasia o levou a jogos de interpretação (RPG), onde, na função de Mestre, criava mundos alternativos onde os outros jogadores pudessem viver aventuras.
A imaginação rendeu, e Peter Ângelo viu que as histórias do RPG poderiam virar romance. Nasceu A Arca de Zândrus, saga em quatro volumes, sobre guerreiros tentando aprisionar demônios seculares libertados com o roubo de um lendário artefato.
O autor procurou várias editoras que têm atuação no segmento juvenil, como Rocco, Globo, Arx e Conrad, mas teve o projeto recusado por todas elas: "Não sou nenhum Paulo Coelho, não tenho referências de trabalhos anteriores. Sou baiano, mas não faço literatura regional, nem estou falando da minha vida sexual, como Bruna Surfistinha", dispara.
Resolveu procurar as editoras sob demanda, no caso, a carioca Corifeu. "Entendo o receio, porque o investimento é muito alto, e, como não tenho nome do mercado, o livro deve ser barato". Peter fez concessões no acabamento visual: as letras ficaram muito pequenas para que o livro coubesse em 250 páginas. Ainda assim, quem quiser comprar pelo site da editora, paga R$ 43.
No início, ele havia encomendado apenas 20 exemplares, mas conseguiu o apoio da Fundação Cultural e da Fundação Pedro Calmon para organizar um lançamento na Biblioteca Central dos Barris e uma noite de autógrafos na Bienal do Livro. Comprou mais 130 edições. Com os custos do coquetel de lançamento, gastou R$ 6 mil. Na estante, ainda tem 37 livros.
Alguns exemplares ele mesmo comprou para fazer divulgação. Na Bienal, vendeu barato, "para evitar a concorrência de best-sellers". Está conseguindo escoar o restante com o boca a boca via internet. Nenhuma livraria de Salvador quis pôr A Arca de Zândrus à venda, a não ser em consignação, e em prateleiras escondidas: Não valia a pena".
Peter Ângelo finaliza neste momento o segundo volume de A Arca de Zândrus, que deve lançar no ano que vem, novamente do próprio bolso. Ainda prepara dois livros. Um é de fantasia, na Inglaterra pré-Rei Arthur. O outro é uma história de racismo no Brasil Colônia. O autor atualmente trabalha como educador em um projeto social, mas não desiste de viver de literatura: "Quero transformar esse hobby em meio de vida".
Regime Militar – Quem não tem o dinheiro em caixa para bancar a própria produção, arrisca outros modelos de negócio. Renaildo Pereira dos Santos, 38, mais conhecido como Reizinho, é diretor e professor de História de uma escola em Ibotirama, oeste do Estado. Publicou em 2001 o poema A Longa Noite, sobre o Regime Militar, em formato livro ilustrado, com uma estrofe por página, graças a uma “parceria cultural”.
Reizinho procurou a Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco, o Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal e a Associação Brasileira dos Anistiados Políticos do Sistema Petrobrás e Demais Empresas Estatais e pré-vendeu 350 exemplares do livro, a R$ 10 cada. Com o dinheiro, pagou o livro, que tinha apresentação do ator Paulo Betti, que viveu o guerrilheiro Carlos Lamarca no cinema.
Seis anos depois, Reizinho pensa em reeditar o poema com capa preta, e publicar uma coletânea de poesia e um pequeno romance, já escritos. "Do bolso, não dá, porque fica muito caro, e já não tenho tempo de correr atrás". Entre a escrita do original de A Longa e a publicação, o autor gastou dez anos no projeto.
Internet - Saulo Dourado tem 18 anos, e dois de seus contos já receberam prêmios internacionais. "Algemas em Seus Pulsos" e "Fuga ao Tema" venceram, respectivamente, os concursos da Associação do Prêmio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro e do Prêmio Juvenil Correntes d‘Escritas, ambos em Portugal.
Natural de Irecê, Saulo se inscreveu para os prêmios via internet - ainda hoje, o principal meio de romper a bolha da falta de publicação. Por meio de um perfil no Orkut, ele manda a quem se inscrever um conto a cada dez dias, com o tamanho máximo de um scrap -1024 caracteres. Os textos também estão reunidos no blog do projeto, o “Escrepo-Conto”
Saulo tem uma coletânea de contos na gaveta, com histórias que variam entre o rural e o realismo fantástico. Espera um edital, ou talvez, fazer uma publicação independente. "Sei que não vou ganhar dinheiro sendo publicado por uma editora, afinal, sou um autor novo. Num primeiro momento, acho melhor partir pro corpo a corpo com os leitores, e tenho a vantagem de levar todo o dinheiro. A diferença entre o autor independente e o publicado por editora comercial é só de prestígio”.
Saulo estuda no supletivo noturno do Instituto Social da Bahia (ISBA), depois de ter abandonado o segundo ano por não acreditar muito no Ensino Médio. Passou seis meses parado, mas voltou a estudar para se preparar para o vestibular. Inscreveu-se em Filosofia, na UFBa, e em Letras, na Uneb.

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