domingo, 28 de outubro de 2007

Uma vida nada cor-de-rosa nas bocas-de-fumo

Sem alarde, as mulheres estão ocupando posições até então estritamente masculinas no tráfico de drogas do Rio. Elas chegaram ao alto escalão da criminalidade e desempenham todas as funções nas bocas-de-fumo. Podem ser as donas do negócio, as responsáveis pela segurança dos chefes ou as que preparam e vendem as drogas. O universo feminino constitui ainda uma rede de apoio aos homens envolvidos no tráfico. Há mulheres que sobrevivem vendendo comida, comprando roupas, cuidando dos feridos, ajudando os que saem da prisão, pagando propinas a policiais e até satisfazendo sexualmente os traficantes ( Assista a trecho do documentário produzido na pesquisa ).

O retrato inédito sobre o envolvimento das mulheres com o tráfico faz parte de um estudo que foi a base para o livro "Falcão - Mulheres e o tráfico", de Celso Athayde e MV Bill. Para conhecer essa realidade, eles percorreram 20 estados, durante oito anos, à procura de histórias que revelassem o que levou crianças, adolescentes, jovens, mães e até avós a buscarem uma vida no mundo do crime. Relatos que terminam, na maioria dos casos, de forma trágica.

- Eu imagino que 20% dos serviços das bocas-de-fumo sejam desenvolvidos por mulheres. Elas estão em todas as áreas na escala do tráfico. É claro que existem menos ainda do que homens, mas elas estão ocupando espaços na hierarquias - disse Celso Athayde, que identificou pelo menos 16 atividades no tráfico ligadas às mulheres.

Um mercado de prostituição foi criado dentro das próprias comunidades para atender os falcões. São moradoras, a maioria entre 13 e 20 anos, que buscam nos traficantes reconhecimento, drogas e dinheiro. Os programas, que são feitos de madrugada, seguem as mesmas regras das prostitutas de fora das favelas. O preço e a duração são combinados antes. Ao final, elas são rapidamente expulsas da boca-de-fumo.

Em geral, elas saem dali com uma pequena quantidade de cocaína, algumas pedras de crack e, no máximo, R$ 50. Às vezes, ganham não mais do que R$ 5 por programa. Conhecidas nas favelas, as jovens são identificadas por um apelido: as boqueteiras do tráfico.

Mas a atividade que mais emprega mulheres no tráfico no Rio é o transporte de drogas, dinheiro e até armas entre as favelas dominadas pela mesma facção. Para a maioria, é a porta de entrada para um mundo do qual terão dificuldade de se desvencilhar, devido à dependência econômica. O fascínio inicial pelo convívio com os falcões é substituído rapidamente pela necessidade de sustentar suas famílias.

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