domingo, 28 de outubro de 2007

Crianças assediam visitantes no Centro Histórico

As carinhas sujas, as roupas grandes demais para seus corpos franzinos e os pés descalços continuam a ser uma das marcas registradas das crianças e adolescentes que circulam pelo Centro Histórico. Eles passam o dia pedindo dinheiro ou comida, praticando furtos contra turistas e nativos, cheirando cola ou fumando crack pelos cantos escuros de um dos maiores pontos turísticos da cidade.

Ontem, às 16 horas, na esquina das ruas Gregório de Mattos com Laranjeiras um grupo de espanhóis foi colocado às pressas pela guia da CVC dentro da Loja Planeta Bahia. A chegada de algumas crianças de rua causou temor a muitos turistas. Sem se identificar, um dos visitantes disse ficar mais incomodado com a insistência de alguns vendedores de colares, mas já ouviu falar que algumas pessoas de seu país foram roubadas por jovens nas ruas do Pelô.

Mais adiante, em pleno Terreiro de Jesus, às 16h15, uma cena de confronto entre um taxista e um garoto que o ameaça com um grande pedaço do calçamento de pedra portuguesa. Duas clientes dele, apavoradas, temiam até se mexer para entrar no carro, enquanto o motorista exigia a intercessão de um jovem um pouco mais velho, declarando em alto tom: “Tome logo uma providência senão eu apago esse pivete! Você sabe qual é a minha!”. Ele acabou entrando no veículo, mas a última palavra foi do menino ao desferir uma pedrada junto ao pneu.

LEITE E BISCOITOS – Numa padaria próxima muita gente observa a cena, mas prefere não interferir. “O menino tá com a cabeça cheia de porcaria. Louco é quem mexe com eles”, disse um homem. Ao mesmo tempo, sai do local um adolescente negro, bigode ralo, carregando duas latinhas de cerveja e duas garrafas pet, vazias. Ele circula ao redor do estabelecimento e acaba abordando uma mulher branca, a quem faz um pedido. Ela concorda, entra na loja acompanhada por ele que confirma o pedido: um pacote de leite longa vida e um de biscoito. Paga a compra (R$ 4,90), o jovem agradece e sai rapidamente agarrado às compras, olhando desconfiado.

Ao ser abordado pela reportagem do lado de fora da loja, o garoto não pára de caminhar, mas responde a algumas perguntas. Diz se chamar M. e que mora no abrigo da Mãe Preta. De cabeça baixa, fala que vai levar a comida para dividir com seus irmãos e se afasta na direção da Praça da Sé. Esta cena se repete várias vezes ao longo do dia segundo os funcionários do estabelecimento, para quem as crianças usam o argumento da fome para sensibilizar as pessoas. Mais tarde, vendem ou trocam os produtos para comprar drogas na Rua 28 de Setembro, acreditam.

PROJETO S – O secretário de Turismo do Estado, Domingo Leonelli, acha que o projeto global que será implantado no Centro Histórico prevê uma atuação conjunta entre a Secretaria de Cultura e a de Desenvolvimento Social. Também lembra que cuidar destas crianças é a principal atribuição do CidadeMãe (administração municipal). Mas ressaltou que este é um problema que tem que ser resolvido com cuidado.

”Não devemos expulsar essas crianças e sim procurar uma forma de acolhê-las, de encontrar uma maneira de ajudá-las. Não pelos danos que possam causar ao Turismo, mas sim por causa delas próprias. A primeira preocupação deste governo deve ser com as crianças, assegurando um tratamento adequado de forma a não piorar ainda mais este grave problema social”, declarou.

SOLUÇÕES – Para a promotora da Infância e da Juventude Márcia Guedes algumas das principais providências neste sentido está prevista no Termo de Ajustamento de Conduta 127/03, assinado pelo prefeito João Henrique Carneiro em 29/08/2006. Mais especificamente em relação aos viciados em drogas, o cláusula sétima determina a implementação, no prazo de um ano, junto à Secretaria Municipal de Saúde, programa de prevenção e tratamento especializado para crianças, adolescentes e responsáveis usuários de substâncias psicoativas e portadores de distúrbios psicológicos.

De acordo com a promotora o TAC encontra-se em avaliação no Conselho Superior do Ministério Público e assim que for devolvido para sua promotoria começará a ser executado. O documento prevê outros tipos de políticas públicas para assistir às famílias das crianças e permitir sua reintegração à sociedade, explicou.

“Existem políticas públicas para quem tem força de vontade para sair das ruas e quer estudar mesmo levando uma vida mais modesta”, ressalvou o conselheiro Luciano Carlos Dórea de Oliveira Júnior, do Conselho Tutelar II, (do Barbalho a Ondina). “O problema é que a maioria dos que estão na rua são muito vulneráveis e não têm como lutar contra os vícios e contra a situação de abandono em que se encontram”, contrapôs.

Ele lembra que o papel dos conselhos tutelares é oferecer proteção e orientação para crianças de até 12 anos. Mas quando é preciso aplicar medidas de proteção não existem locais onde possam ter um acompanhamento mais atento.

“Os abrigos servem apenas para que não durmam nas ruas, mas não tratam nem ajudam crianças usuárias de drogas”, declarou.

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