domingo, 28 de outubro de 2007

Multimídia altera rotina das salas de aula

Ao entrar na sala de aula, no lugar do tradicional quadro negro e giz, uma lousa branca com projeção em flash exibe cenas comentadas do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, para cerca de 60 alunos do 3o ano de um colégio particular em Salvador. Na aula de literatura, o recurso multimídia é utilizado pelo professor como ferramenta de reforço para a revisão pré-vestibular da temida prova da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Alguns seguem dispersos, outros assistem à aula sem desgrudar o olho da ‘tela’. “Tem que prestar atenção. Está muito próximo do vestibular, mas às vezes dá um sono danado essa luz apagada com filminho. É um esforço manter a concentração”, comenta a estudante Janna Souza, 17 anos, com ar de receio, típico de quem vai encarar a primeira fase do vestibular de medicina da UFBA em menos de 20 dias.

No horário seguinte, é vez de uma apresentação em power point com o professor de física, que traz para os alunos ilustrações animadas dos assuntos força eletrostática e campo elétrico. Depois de 50 minutos de explicação, a aula termina com a seguinte dica: “O apontamento de eletricidade estará disponível a partir de amanhã na sessão de física do site do colégio. Não esqueçam de estudar em casa”, sugere o professor.

Também no ritmo das novas tecnologias, segue a aula de geografia. Enquanto o professor explica a precessão do eixo da Terra, ou seja, “a Terra não é perfeitamente esférica, mas sim achatada nos pólos e bojuda no Equador”, na lousa eletrônica, aparecem imagens virtuais que ilustram o conteúdo.

Para quem é do tempo da sabatina, cuspe e giz, e não está familiarizado com o termo, fica aqui um parêntese de explicação. A lousa eletrônica substitui o quadro negro, possibilitando a digitalização dos traçados realizados manualmente pelo professor por meio de uma caneta eletrônica.

Além disso, a lousa eletrônica proporciona interação com conteúdo vindo de um computador que pode estar conectado a internet ou não. O professor pode também realizar anotações manuais sobre as imagens projetadas na lousa. “Não consigo trabalhar sem a lousa eletrônica”, comenta João Luis, professor de geografia do Colégio Oficina.

Invasão high tech
Nos últimos cinco anos, o uso de novas tecnologias e recursos multimidiáticos para auxiliar no aprendizado e desenvolvimento do aluno passou a ser uma das principais preocupações dos coordenadores pedagógicos de colégios de ensino fundamental e médio. Situação que cabe ao menos as instituições da rede privada da Bahia e de outros estados brasileiros, acompanhando uma tendência mundial de inserção de mídia digital na sala de aula do primário ao pré-vestibular. Não é diferente no ensino de nível superior.

“É uma situação que veio para desafiar a escola. É a constatação de que a estrutura antiga, aquela seguida há 200 anos, não dá mais”, avalia Maria Eugênia Leite, coordenadora do ensino fundamental da escola Lua Nova. Ocorre que para cada mudança sobram apostas muitas vezes calcadas em dúvidas e incertezas. “A verdade é que, diante de tanta diversidade tecnológica, a escola ainda não sabe o que fazer”, conclui.

E é justamente nessa linha de erros e acertos que alunos e professores dividem opiniões diversas a fim de encontrar um ponto de equilíbrio para a questão. Afinal, o que garante a eficiência do aprendizado? A inserção de multimídia à sala de aula ou a habilidade do professor para conduzir o assunto?

Professora de geografia há mais de 30 anos e fundadora do colégio Oficina, Márcia Kalid aposta no bom senso para conduzir o processo. “O uso de recursos tecnológicos é um complemento extremamente importante para ser utilizado em todas as disciplinas. Mas a presença do professor é fundamental, isso nunca será dispensado, muito menos os livros. É preciso dosar, saber a hora certa de utilizar a tecnologia como ferramenta de ensino”, acredita.

Paralelo ao uso de slides em projeções de datashow, apresentação em flash ou powerpoint, além de outros recursos, como conteúdo da disciplina disponibilizado em blogs, ações de incentivo ao uso do livro é também prioridade avaliada pela coordenação pedagógica do Oficina. “As turmas da 5ª série têm ciranda de livros com contadores de história. É uma forma de incentivar, já que em casa a maioria tem acesso a internet e aos jogos eletrônicos. A criança precisa se encantar pela leitura de livros desde cedo”, analisa.

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