quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Empresa brasileira é retrato da nova economia chinesa

Alta produtividade, pouca qualidade, custo baixo e uma frágil estrutura trabalhista. As imagens da China são muitas, especialmente do ponto de vista ocidental. Em um subúrbio industrial de Pequim, no entanto, a Embraco - Empresa Brasileira de Compressores - escreve e testemunha outra realidade.

Desde 1995 em solo chinês, através de uma joint-venture com o governo municipal, que detêm 30% das ações, a empresa, reconhecida mundialmente no mercado de compressores, experimenta um crescimento vertiginoso escorado em uma nova realidade de mercado e de gestões e relações de trabalho, distante dos fatos ou mitos que freqüentam muitas das análises sobre a nova economia chinesa.

"A nova lei trabalhista (anunciada no 17º Congresso do Partido Comunista Chinês) terá um grande impacto nas relações entre empresas e empregados, que até agora eram regidas em sua maior parte por contratos temporários de trabalho. Os novos contratos permanentes, por exemplo, terão encargos sociais de 58%, contra 15% dos temporários", explica João Lemos, 48 anos, diretor geral da Embraco na China.

Na contramão do Brasil, onde se discute a reforma da lei e a desregulamentação, a china parece começar a viver uma transição da informalidade para a formalidade, certamente em função da pressão mundial por qualidade e contra salários que caracterizem uma desleal vantagem competitiva para os chineses.

O salário médio dos 1.200 funcionários da Embraco é de 1.400 yuanes (cerca de US$ 200). Em 1995, no início da operação, era de 750 yuans (US$ 107). Um gerente ganhava 2.000 yuanes (US$ 285). Agora, recebe 25 mil yuanes (US$ 3,5 mil). "Nosso objetivo é transformar essa fábrica em planta de produtividade mundial", anuncia Lemos.

Os planos de qualificação da força de trabalho e melhoria de qualidade dos produtos, inevitáveis para a sobrevivência a longo prazo, incluem treinamento e reciclagem permanente de mão de obra.

A primeira turma de 35 gerentes e chefes acaba de se formar em um curso de MBA. A linha de montagem é repleta de jovens de até 19 anos provenientes de escolas técnicas do interior do país.

"Trouxemos classes inteiras dessas escolas para trabalhar em nossa empresa", revela Kao Chian Tou, diretor comercial. Os jovens recebem auxílio moradia e dividem apartamentos em áreas próximas da empresa.

A parcela de jovens na moderna planta industrial já chega a 20% do total de funcionários. Os demais 80% contabilizam mais de 5 anos na empresa. A filial chinesa da Embraco, que tem sede em Joinville, Santa Catarina, tem o mesmo número de empregados do início da operação, mas produz cinco vezes mais. A produção saltou de 800 mil compressores em 1995, para 3,6 milhões este ano.

Números tão significativos que fazem a filial chinesa responder por 12% do faturamento mundial da empresa, que fábrica anualmente 36 milhões de compressores (utilizados em refrigeradores e freezers do mundo inteiro).

"Os segredos da China e do sucesso de uma empresa aqui são o planejamento. Quando cheguei aqui em 95 pensei: até quando vai esta onda? Depois de 12 anos e algumas turbulências tenho certeza que a estratégia é de longo prazo. A China tem fome de crescimento. O mundo está disputando uma Olimpíada e a China quer ganhar. Ou melhor, voltar a ganhar, pois já foi a maior economia mundial durante a Dinastia Ming, no século 15", diz Lemos.

A receita do sucesso também inclui entender em profundidade a cultural local. "Do ponto de vista de um brasileiro e de um estrangeiro, a principal dificuldade é a diferença cultural", explica Lemos, gaúcho de Cachoeira do Sul, dois filhos, e em sua segunda temporada no país. "Não sei nada da China. Falo pouco chinês e não negocio em chinês. Para negociar com um chinês tem que ter outro chinês", receita Lemos.

"O Brasil não tem idéia do que é a China. O que é essa onda. A pressão social existe, mas tem vários setores da sociedade que estão sendo beneficiados pelo crescimento. A força de trabalho da China é de 780 milhões de homens e mulheres, meninos e meninas. A obra civil emprega mais de 100 milhões de operários. São os bóias frias daqui. A indústria moderna emprega mais de 280 milhões. O restante está na agricultura. Esse é o grande desafio do governo chinês. Como migrar essa massa de camponeses para a nova indústria", finaliza o mais bem sucedido empresário brasileiro na China.

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