Na televisão, até fila para comprar ingresso parece festa. O torcedor passa sufoco, fica horas e horas em pé, toma chuva, se queima no sol, mas encontra fôlego para festejar.Porém, nesta sexta, a venda de ingressos na Fonte, para o jogo de domingo, entre Bahia e Vila Nova, não foi bem assim. Quase todas as pessoas exibiam rostos fechados, revoltados com a falta de organização.
Apenas quando uma emissora de TV chegou para cobrir a aglomeração na Fonte, alguns torcedores se animaram para gritar: “Vamos pra Série B” e ganhar uns 10 segundos de fama na telinha.
Mas foram poucos. A maioria tinha muitos motivos para reclamar. O torcedor Paulo Ricardo, 28 anos, chegou às 6h30 da manhã para garantir seu lugar na fila. Duas horas e meia de demora eram certas. A bilheteria só abriu às 9, mas ele não esperava ter que ficar até a hora do almoço aguardando sua vez.
“Teve um tumulto generalizado aqui. Tinha só seis policiais e uma bagunça de filas. Eu estava na metade de uma, mas depois disseram que era de cadeira numerada e eu tive que ir para o fundo de outra fila. Só depois que o comandante chegou e agilizou o lado”, afirmou o tricolor.
Por volta das 9 horas da manhã, houve conflito entre polícia e torcedores. Como o contingente era pequeno, ficava muito difícil conter a ira dos tricolores. Depois, chegou reforço e os ânimos se acalmaram. A área da fila foi isolada e poucos se arriscavam a furar o bloqueio dos policiais. Mesmo assim, o soldado Antônio tinha que expulsar, a todo momento, meninos que tentavam entrar no meio da fila para não perder tempo. “Não tem um policial para cada pessoa. Fica difícil”, reclamou.
O comandante era o Major Edmilson, que tentava organizar aquele mundo de gente enfileirada da bilheteria 4 – localizada na entrada do Dique do Tororó – até o Ginásio Antônio Balbino, próximo à Ladeira da Fonte das Pedras.
Para tentar reduzir a ação dos cambistas, ele teve a idéia de formar uma fila única e aumentar o transtorno para todo mundo, já que a demora é muito maior para cada um conseguir comprar seu ingresso. “Infelizmente, foi esse o jeito que encontramos para tentar reduzir a ação dos cambistas”, disse ele.
Acontece que a manobra não surtiu muito efeito. Logo que a reportagem de ATEC desceu do carro, já foi abordada pelos primeiros cambistas e depois encontrou mais uma dezena pelo caminho. “Até agora, não vimos nada, mas, se encontrarmos, vamos apreender os ingressos e encaminhar o infrator para a delegacia”, garantiu o major.
A passividade dos olhos dos policiais é tanta que nenhum deles conseguiu enxergar o que todos viram, e em montes. O tenente David, o soldado Flávio e todos os outros componentes da tropa afirmaram veementemente que é muito difícil conter a agilidade dos cambistas e que não encontraram nenhum pelos arredores da Fonte.
“Não tem nenhuma ordem pra gente nesse sentido. Estamos aqui só preservando a viatura e qualquer coisa que acontecer nesse perímetro. Tem gente à paisana para verificar isso aí”, esclareceu o soldado Flávio.
Se realmente havia policiais sem fardas para tentar surpreender os vendedores ilegais, o trabalho foi muito mal feito, pois não tinha coisa mais fácil do que comprar entradas nas mãos dos cambistas.
Acabou – Quando o relógio apontou 15 horas, foi decretada mais uma vitória parcial dos cambistas sobre a torcida tricolor. Os ingressos de meia e inteira chegaram ao fim e restavam apenas poucas entradas para cadeiras e arquibancada especial. Até o final do dia, todas desapareceram.
Ou melhor, foram para as mãos dos revendedores mais procurados da Fonte Nova. Quer dizer, procurados pelos torcedores, desesperados para assistir ao time do coração jogar, não pela polícia.
Até uma moça jovem, grávida, segurando a mão da filha, tentava a sorte vendendo ingressos. “Quer comprar não, moço? É R$ 25 reais”, pedia ela, mostrando o bilhete.
Na Sede de Praia, a confusão não foi menor do que na Fonte. Segundo o estudante Renato Silva, de 19 anos, que chegou às 7h20 para comprar seu ingresso, alguns policiais tentaram organizar a muvuca, mas, como não conseguiram, foram embora.
“A fila só começou a andar quando começaram os boatos de que os ingressos tinham acabado”, disse ele, que praticamente não saiu do lugar até 14 horas, quando resolveu ir embora. As entradas terminaram por volta de meio-dia.

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